No corre-corre desenfreado dos dias em que vivemos... vivemos??
Nos programamos para aproveitar melhor um tempo que não temos e uma vida que deixamos passar sem nos dar conta que não vivemos.
Hoje, as pessoas vivem sem muitas coisas, mas quase ninguém vive sem uma cápsula.
Um medicamento "de estimação" que muitas vezes tomamos, sem prescrição médica, para sanar de forma rápida os males do cotidiano.
Você tomou a sua drágea hoje? Não? E ontem? Não? Com certeza tomou alguma nessa semana que passou ou tomará uma na semana que virá.
Está gordo? Tome uma cápsula para emagrecer.
Está magro? Tome uma cápsula para engordar.
Está triste? Tome uma cápsula pra ficar feliz.
Quer dormir? Quer acordar? Quer... Quer... Cápsulas... Cápsulas...
Ei!
Eu quero um céu azul, mas com algumas nuvens pra eu poder imaginar formas. Põe numa cápsula pra mim. Não dá?

Então, me dá um comprimido de sol que aqueça na medida certa, um calor gostoso, quente e aconchegante. Não pode? Por quê? Derrete?
Troca. Pega uma pílula com uma brisa refrescante com cheiro de natureza no vento trazendo uma paz alegre capaz de instalar um risinho discreto completamente espontâneo no rosto. Só tem
fluoxetina?
Puxa! As melhores coisas não estão em drágeas.
Preciso de
tempo pra
viver minha vida
DE VERDADE...

Enquanto isso, vou substituir a cápsula de veiculação de fármacos por uma cápsula do tempo imaginária . Vou voltar até a década de 80, quando eu era criança e podia sentir a "aguinha" nas folhas da grama sob os meus pés, mesmo estando no fundo de uma rede, com febre, comendo biscoito Maria e tomando guaraná Taí.
Lembro da inocência da minha mãe quando me via tão feliz mesmo estando doente: "Essa menina parece que tá ficando doida..." Tão ingênua... mal sabia ela que eu estava presa naquele quarto, mas a minha imaginação corria descalça, solta, lá fora, sem adoecer com o cheiro do mormaço do jardim.
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